O prejuízo recorde da Stellantis não é veredito sobre os elétricos: é a conta do zigue-zague
O primeiro prejuízo operacional anual da Stellantis é lido como prova de que os elétricos fracassaram. Para nós, prova outra coisa: anos de guinadas custam bem mais que qualquer aposta tecnológica.
Foto: Ricardo Stuckert / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)
Um prejuízo de €22,3 bilhões prova que carros elétricos não vendem, ou que mudar de ideia em público é a coisa mais cara que uma montadora pode fazer? Nós nos inclinamos fortemente para a segunda leitura.
Veja o que aconteceu. Como informou a Reuters no início de fevereiro, a Stellantis anunciou €22,2 bilhões em encargos para o segundo semestre de 2025, ao reduzir suas ambições com elétricos. No ano completo, registrou prejuízo líquido de €22,3 bilhões sobre receita de €153,5 bilhões, além de um prejuízo operacional ajustado de €842 milhões, o primeiro desde a formação do grupo em 2021, como notou o Motor1 antes da divulgação dos resultados.
O CEO Antonio Filosa foi direto, segundo o MoparInsiders: os resultados refletem "o custo de superestimar o ritmo da transição energética".
O prejuízo é falha de planejamento, não de produto
Leia essa frase de novo. O problema não é que os elétricos existam. É que a empresa dimensionou fábricas, cadeias de suprimento e planos de produto para uma curva de demanda que não apareceu e depois rasgou o plano. Os encargos cobrem ajustes nos planos de produtos elétricos, investimentos na cadeia de suprimento, provisões de garantia e reestruturação de pessoal, esta principalmente na Europa. Cerca de €6,5 bilhões do total serão pagos em dinheiro ao longo de quatro anos, a partir de 2026; a ressaca não acabou.
Reparem também no que os números não dizem. A receita do segundo semestre subiu 10% e as entregas cresceram 11%, para 2,8 milhões de unidades. A América do Norte, o mercado em que a Stellantis mais se apoia, cresceu 39%. Uma empresa cujos carros ninguém quer não registraria isso. Na nossa visão, é uma empresa que gastou muito na combinação errada e agora paga para corrigi-la.
E os elétricos não são os únicos culpados. O site italiano Alvolante aponta o legado dos cortes de custo da era Carlos Tavares: lacunas na linha, carros com preços fora do mercado, problemas de qualidade. Some os custos dos recalls de airbags da Takata na Europa e das tarifas, que a empresa espera que cheguem a €1,6 bilhão em 2026. Jogar tudo na conta da eletrificação é preguiça.
O inimigo real são as guinadas, e o "multienergia" pode virar mais uma
A Stellantis agora chama sua abordagem de "liberdade de escolha": combustão, híbrido, híbrido plug-in e elétrico a bateria lado a lado. Como resposta a um mercado desigual, é razoável. Na América do Norte, diríamos até que já era hora.
Mas teríamos cuidado em celebrar a virada como sabedoria. Sair de um roteiro focado em elétricos para se proteger em tudo, com relatos de que o diesel voltou a ser considerado, nos parece mais uma oscilação do mesmo pêndulo. O setor está no mesmo barco, como observa o hdmotori: General Motors e Ford também registraram perdas significativas ligadas a elétricos. Cada oscilação custa tempo de engenharia, confiança de fornecedores e confiança de clientes. Os vencedores provavelmente serão os que se comprometerem com uma linha estável e sem grandes emoções e a mantiverem por tempo suficiente para acertar qualidade e custo.
Os investidores ainda não parecem convencidos. Um site financeiro italiano indicou a ação em torno de €3,92 em 13 de outubro de 2026, bem abaixo da mínima histórica de €5,73 que o MoparInsiders citou no início deste ano. É um mercado pedindo provas, não promessas.
Para quem compra, o teste real está no início da linha
Esqueça os bilhões das manchetes e olhe onde a Stellantis diz que as coisas funcionam. Filosa disse que a empresa entregou 325 mil unidades dos seus compactos "smart car" em 2025, modelos como Fiat Grande Panda, Citroën C3 e Opel Frontera, e que os pedidos subiram 80% em relação ao ano anterior. A empresa pretende ampliar a capacidade de produção na Sérvia em 2026.
Essa é a parte que acompanharíamos. Carros acessíveis e bem construídos são o que um grupo de volume realmente precisa, seja qual for o motor. Não vamos chutar o quanto os próximos elétricos serão mais baratos. Mas a Stellantis marcou para 21 de maio um evento para investidores em Auburn Hills para detalhar o plano completo, e a pergunta útil é simples: esse plano entrega carros com preços críveis e menos dor de cabeça de qualidade, ou só um cardápio maior de motores?
Nosso veredito
Não leia esse prejuízo como o fim da era dos elétricos. Leia como o preço de planejar para um mercado que não existia e, de repente, para outro diferente. Quem vai comprar deve ignorar os slogans e acompanhar três coisas: se os compactos mantêm o ritmo de pedidos, se as versões elétricas chegam a preços mais próximos dos equivalentes a combustão e se a Stellantis consegue manter uma direção por mais de um ciclo de produto. Se conseguir, este ano feio vai parecer um recomeço. Se não, será só a primeira parcela.
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