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Redação Drivesfera
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Os 67% de elétricos na China são reais, mas a história é mais confusa do que parece

A manchete diz que os elétricos venceram na China. Os dados mostram que a gasolina despenca mais rápido do que os elétricos crescem, e o Ocidente deveria ler bem essa diferença.

Publicado
23 de outubro de 2026
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Um mercado em que as vendas de elétricos caíram 16,7% na comparação anual é mesmo o que prova que os elétricos venceram? Curiosamente, sim. Mas não pelo motivo que os gráficos comemorativos sugerem.

O número da manchete é sólido. Segundo dados da CPCA compilados pelo CnEVPost, os veículos de nova energia (NEV) responderam em setembro por um recorde de 67,0% das vendas no varejo de carros de passeio na China (a divulgação preliminar apontava 67,1%, uma diferença de arredondamento). A participação dos NEV está acima de 60% há seis meses seguidos, de acordo com a CPCA. É um recorde e, na nossa visão, não é um ponto fora da curva.

Aqui está o detalhe. As vendas no varejo de NEV em setembro caíram 16,7% na comparação anual, e o mercado total de carros de passeio caiu bem mais: 28,0%. A participação subiu porque o denominador despencou, não porque os elétricos tenham disparado no mercado interno.

Os 67% contam a história de uma gasolina em queda livre

Vale ler o próprio diagnóstico da CPCA. Neste ano, como relata o CnEVPost, as montadoras disputam a demanda existente, com ganhos concentrados quase todos em NEV e praticamente nenhuma demanda nova por veículos a gasolina. As vendas no varejo de veículos a gasolina caíram 43% em setembro, segundo o resumo da AutoHaina dos dados da CPCA, e os carros a gasolina convencionais recuaram 49%.

Ou seja, o ponto de virada já passou no sentido que importa: o carro a combustão não é mais onde está a demanda incremental da China. A CPCA diz que só os NEV ainda geram demanda incremental estável. Nossa leitura: quando a tecnologia antiga só consegue disputar um bolo cada vez menor, ela deixa de ser a opção padrão. Vira o produto legado.

Mas não chamaríamos os 67% de volta olímpica sem ressalvas. A própria CPCA observou que a maioria das marcas de NEV não tem modelos de grande sucesso e que vendas impulsionadas por metas elevaram a participação a um nível incomum. Os preços altos do petróleo, que a associação ligou ao conflito em torno do Estreito de Ormuz, provavelmente fazem boa parte do trabalho. Isso torna parte dessa participação um efeito do preço do combustível, não puro amor do consumidor. Os preços podem cair de novo.

A arma de verdade é a máquina de exportação

O número mais importante dos dados talvez não seja 67%. As exportações de NEV subiram 163,5% na comparação anual, para 558 mil em setembro, e o atacado de NEV chegou a cerca de 1,67 milhão, o maior do ano. O varejo doméstico caiu enquanto os embarques subiram. Como calcula o Global China EV, compradores estrangeiros respondem por todo o crescimento dos embarques de NEV neste ano.

Isso pesa mais para as marcas ocidentais do que qualquer índice de participação interna. Um mercado doméstico em que, na nossa leitura, a oferta ultrapassa a demanda e as margens são magras (a margem de lucro da indústria automotiva foi de 3,6% de janeiro a agosto) empurra os produtores para fora. Os números da CPCA mostram que as marcas chinesas conquistaram 29% do mercado externo de NEV em agosto, contra 15,8% em todo o ano de 2025. Achamos que essa trajetória é a ameaça real, não o mix interno da China.

Tratar o elétrico como nicho é a lição errada, mas copiar a China também é

A tese de que as marcas ocidentais planejam para um mercado que não existe mais precisa de um matiz. O mercado chinês é moldado por subsídios, tratamento tributário na compra (os compradores de NEV pagam neste ano metade do imposto padrão, após isenção total em 2024 e 2025) e preços de combustível. Europa e Estados Unidos não são a China. Quem diz "67% lá significa 67% aqui no ano que vem" está exagerando.

O que os dados sustentam é mais restrito e continua incômodo. Primeiro, as marcas tradicionais de joint ventures, as que têm sócio estrangeiro, tiveram em setembro penetração de NEV de apenas 15,9%, contra 84,5% das marcas chinesas nacionais. As vendas no varejo de NEV delas subiram 36% na comparação anual, então não é um colapso dos elétricos, mas essa distância é, a nosso ver, o retrato mais claro de quem tem mais a perder por lá. A FAW-Volkswagen, por exemplo, vendeu 76.827 carros em setembro, queda de 44,6% na comparação anual, segundo os rankings do CnEVPost.

Segundo, os rivais que vencem em casa agora exportam em escala. Mesmo que você acredite que os elétricos continuarão minoritários no seu mercado, o concorrente que dominou o mercado dos 67% chega com volume e, provavelmente, com vantagem de custo também.

Nosso veredicto

Pare de ler os 67% como previsão para o seu país e passe a lê-los como um alerta competitivo. Os elétricos não são nicho no lugar que mais os fabrica, e as empresas de lá têm um mercado interno encolhendo que as empurra a vender em outros lugares. As marcas ocidentais que mantêm o elétrico como projeto paralelo não estão avaliando mal a China. Estão avaliando mal quem vai aparecer nas suas concessionárias.

A ressalva justa: é um único mês, turbinado pelos preços do petróleo e por um segmento de gasolina em colapso, e os números da CPCA foram revisados entre a divulgação preliminar e a final. Mas a CPCA espera que a penetração dos NEV continue acima de 65%. Se for assim, o debate sobre se os elétricos são mainstream na China está, a nosso ver, encerrado. O debate que resta é quem lucra com isso.

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