O colapso da Volvo na China é um alerta para todas as marcas ocidentais
Ações em queda de quase 30%, mais 2.500 demissões e um CEO dizendo que carros globais desenvolvidos na Europa e na China não vão funcionar: a Volvo é o canário, não a exceção.
Foto: Volvo Cars / sala de prensa (uso editorial)
O que acontece quando uma marca premium controlada por um grupo chinês ainda assim é esmagada na China? Acontece o terceiro trimestre da Volvo, uma lição que toda montadora ocidental deveria ler duas vezes.
Na sexta-feira, a Volvo Cars informou um prejuízo operacional de 5,6 bilhões de coroas suecas (SEK) no terceiro trimestre, contra um lucro de 6,4 bilhões de SEK um ano antes. Como informa a CNBC, a empresa vai cortar 2.500 empregos, 2.000 deles na Suécia, e reduzir outros 5 bilhões de SEK em custos. As ações caíram cerca de 27% a 30%, dependendo do veículo, e pelo menos um relato as coloca na mínima histórica.
A causa não é misteriosa. A receita na China caiu quase 50% na comparação anual, e o CEO Håkan Samuelsson disse que a mudança "veio mais rápido do que pensávamos". A pressão sobre preços e as tarifas nos EUA pioraram o quadro, mas a China é a manchete.
Ter um controlador chinês não foi um escudo
A história reconfortante para a Volvo era que pertencer à Geely a protegeria. Não protegeu. As entregas na Grande China caíram 40,6% no trimestre, segundo um resumo dos resultados da BiggoFinance, enquanto Europa e outros mercados cresceram 2%. Esse contraste explica tudo: o produto não está fracassando em todo lugar, e sim onde os rivais locais andaram mais rápido.
Acreditamos que esse é o ponto que mais deveria alarmar a concorrência. Se uma marca com controlador chinês não consegue manter sua posição, uma marca que trata a China como um grande mercado de exportação tem ainda menos chance.
A China não está perdida, mas a antiga cartilha está
Evitaríamos a leitura apocalíptica. O que Samuelsson de fato descreveu é mais útil e mais desconfortável: vender carros globais desenvolvidos na Europa e na China "não vai funcionar". Sua receita é uma estrutura regional, carros adaptados a cada região, plataformas compartilhadas com a Geely e softwares-chave, incluindo o sistema de infoentretenimento e a assistência ao motorista, desenvolvidos na China.
É uma admissão discreta de que a antiga cartilha premium (projetar na Europa, localizar pouco, cobrar mais caro) acabou no maior mercado automotivo do mundo. A Volvo planeja apresentar dois modelos específicos para a China em 2027. É uma resposta razoável, mas é uma resposta de 2027 para um problema que, segundo o próprio CEO, avançou mais rápido do que o esperado.
Os EUA também não são porto seguro
Seria tentador para as marcas ocidentais dizer: tudo bem, a China está difícil, vamos nos fortalecer em casa. Os números da Volvo desmentem isso. A empresa cita tarifas, menos incentivos a carros elétricos e uma baixa contábil de 1,1 bilhão de SEK em créditos CAFE nos EUA. Sua resposta é iniciar a produção do XC60 em Charleston no primeiro trimestre de 2027, o que faz sentido, mas não vai consertar as margens da noite para o dia.
Há também um sinal da gestão. Segundo a Anadolu, a Volvo retirou suas projeções no início deste mês e se recusou a dar novas estimativas de curto prazo. A empresa também nomeou Klaus Zellmer como próximo CEO, que assume até 1º de outubro de 2027. A companhia mantém a ambição de longo prazo de uma margem operacional de 8%, que, com uma margem trimestral de -8,4%, parece distante. Trataríamos essa meta como uma aspiração, não como uma previsão.
Nosso veredicto
A Volvo não é uma história só da Volvo, mas também não é um retrato perfeito do setor. Ela estava especialmente exposta à China e agora está especialmente necessitada de caixa, com saída de fluxo de caixa livre de cerca de 8,9 bilhões de SEK no trimestre. Outras marcas podem ter mais folga.
Ainda assim, a lição vale para todos. As montadoras premium ocidentais que contam com a demanda chinesa como motor de crescimento devem assumir que ela pode encolher mais rápido do que dizem seus modelos de planejamento, e que a solução não é mais marketing, mas engenharia local, software local e estruturas de custo locais. A Volvo está descobrindo isso a um preço alto. O resto da indústria ainda pode aprender mais barato, mas provavelmente não por muito tempo.
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