Elétricos e híbridos
Redação Drivesfera
Elétricos e híbridos

Luce esgotada prova a força da marca Ferrari, não que o carro elétrico seja bom

Um 2027 esgotado cala os críticos sobre a demanda, mas pedidos feitos antes de alguém dirigir medem escassez e poder da marca, não a qualidade do primeiro elétrico da Ferrari.

Publicado
5 de novembro de 2026
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Foto: Lcaa9 / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

A Ferrari Luce acabou de provar que os críticos estavam errados sobre os superesportivos elétricos? Só se você acha que os críticos discutiam a demanda. Nós achamos que discutiam outra coisa, e o esgotamento não responde a isso.

Veja o que aconteceu. Na teleconferência de resultados do terceiro trimestre, o CEO Benedetto Vigna disse, em suas palavras: "Todos os Luce que planejamos vender no ano que vem basicamente estão alocados. Se alguém chegar agora, terá de esperar um ano para conseguir os carros", segundo a Motor1. As entregas nem começaram: os primeiros carros chegam às ruas antes do fim de 2026, e o aumento real da produção fica para 2027. Nos Estados Unidos, o preço começa em US$ 560.800.

O mercado gostou da notícia. O Today.it informa que o lucro líquido subiu para 431 milhões de euros (+13% em relação ao ano anterior) e que a ação chegou a 375 euros, depois de cair quando o carro foi apresentado. A Ferrari também disse que sua carteira total de pedidos cobre a produção até 2028.

A demanda nunca foi a questão

As objeções mais barulhentas à Luce eram sobre design e alma: sem V8 nem V12, e um visual que alguns acharam distante demais da identidade de Maranello. São discussões de gosto. Uma carteira de pedidos esgotada não resolve uma discussão de gosto, porque quem faz os pedidos é, na nossa visão, um grupo minúsculo e autosselecionado que nunca seria convencido por comentários na internet.

Portanto, sim, os pessimistas que previram um fracasso erraram. Mas a volta olímpica, e há muitas por aí, afirma demais. Os pedidos mostram que os clientes da Ferrari vão comprar o que a Ferrari vende. Isso não é novidade; é todo o modelo de negócio.

A escassez é o produto, e o elétrico é a embalagem

Olhe o que realmente sabemos. A Motor1 observa que a Ferrari não disse quantas unidades da Luce pretende produzir em 2027, e o CEO se recusou a dar uma meta de vendas. "Esgotado" diante de um número não divulgado diz pouco por si só, e a nova fábrica dedicada está sendo ampliada aos poucos. Achamos que uma alocação limitada com uma marca dessas sempre ia esgotar. É assim que a alocação funciona.

O Today.it acrescenta a outra metade da lógica: o acesso às séries especiais da Ferrari recompensa o histórico de compras, de modo que a Luce pode servir de bilhete de entrada para novatos ou de forma de os colecionadores atuais garantirem seu lugar na fila dos próximos modelos. Essa segunda leitura é opinião nossa, já que a apuração não diz quantos compradores estão em cada grupo (a Ferrari se recusou a separar proprietários de novos clientes). Mas é plausível que alguns desses pedidos tenham mais a ver com a relação com a marca do que com o carro.

Se somarmos que, segundo o Tom's Hardware Italia, os compradores se comprometem a pagar cerca de 550.000 euros sem ter dirigido, o quadro fica mais nítido. As pessoas pagam por um lugar na fila e por um cavalinho rampante. Desconfiamos que, para muitas delas, o motor ser elétrico é quase secundário. É um elogio à marca e um elogio meio atravessado à engenharia dos elétricos.

O carro ainda precisa merecer o dinheiro

O teste honesto vem no primeiro trimestre de 2027, quando a Ferrari planeja test-drives internacionais para a imprensa, seguidos de experiências de direção para clientes em potencial. O próprio Vigna acredita que dirigir o carro pode melhorar a percepção. Diríamos que esse é exatamente o ponto: o veredito sobre a Luce como carro ainda não saiu. A Motor1 chega a admitir que um visual mais tradicional talvez atraísse mais compradores, mas "nunca saberemos".

Alguns veículos já descrevem dinâmica e números impressionantes, mas trataríamos com cautela as afirmações da imprensa italiana sobre desempenho e sensação ao dirigir até que cheguem os testes independentes; as fontes divergem até no preço (cerca de 500.000 ou 550.000 euros).

Há também uma lição para o debate mais amplo sobre os elétricos. Isso não é prova de que o mercado está pronto para o luxo elétrico em larga escala, nem de que os elétricos "venceram" os puristas da combustão. É prova de que uma marca ultraescassa pode carregar qualquer tipo de motorização. As fabricantes de massa não podem tomar emprestada essa lógica, porque não conseguem racionar a produção até chegar a uma lista de espera.

Nosso veredito: deem à Ferrari a vitória em estratégia e finanças, porque ela leu seus clientes melhor do que os comentaristas. Mas não confunda uma carteira de pedidos cheia com um grande carro. Espere os testes do primeiro trimestre e julgue a Luce quando alguém que não pagou pela marca a tiver dirigido.

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