A meta de CO2 de 87,5% da UE para 2035 é uma proibição com válvula de escape
A comissão do Parlamento suavizou o prazo de 2035 para os motores a combustão, mas um acordo tão complicado dá margem às montadoras e deixa os compradores sem saber o que poderão comprar.
Foto: Trougnouf (Benoit Brummer) / Wikimedia Commons (CC BY 4.0)
Uma proibição continua sendo proibição se vem com uma folga de 12,5 pontos entre 100% e 87,5%? Essa é a pergunta que Bruxelas jogou no colo da indústria automotiva nesta semana, e não achamos que a resposta seja tão reconfortante quanto dizem os dois lados.
Na quarta-feira, a Comissão de Meio Ambiente do Parlamento aprovou sua proposta de revisão das metas de CO2 para carros e vans novos, por 48 votos a 30 e duas abstenções. Para os carros de passeio, a redução das emissões da frota em 2035 cairia de 100% para 87,5%. Segundo a editoria de finanças do Repubblica, as montadoras teriam de compensar um teto de 7,5%, medido em relação à meta de referência de 2021, para chegar a 95%, usando créditos de aço de baixo carbono produzido na UE.
É uma votação em comissão, não uma lei definitiva. Tudo o que vem a seguir é a nossa leitura de para onde isso aponta.
É uma proibição mais branda, não o fim da proibição
As manchetes falam da queda do "tabu" e de uma UE que se abre aos motores a combustão. Politicamente, é justo, mas a aritmética importa. Passar de 100% para 87,5% não significa que um em cada oito carros possa ser um simples modelo a gasolina. O mecanismo de créditos de aço, como descrito, é uma forma de cobrir parte da diferença, e o número de 95% citado na mesma cobertura sugere que a direção continua sendo de emissões muito baixas. Note, porém, que parte desses 95% viria de créditos de aço, e não do escapamento.
Por isso, chamaríamos de proibição com margem. O sinal para quem investe em baterias e recarga provavelmente permanece: a frota ainda deve ficar muito limpa. O que muda é que ninguém sabe dizer com certeza como será preenchido esse último trecho.
Montadoras ganham folga; compradores ganham neblina
A reação dos lobbies empresariais é reveladora. A Confindustria e a BDI, da Alemanha, chamaram a posição do Parlamento de um passo adiante, mas disseram que é preciso mais flexibilidade. Quando a indústria diz que uma concessão não basta, entendemos isso como sinal de que a concessão é real e o apetite, maior.
Para os fabricantes, flexibilidade é um presente: permite continuar se protegendo, com um pouco de tudo na linha. Para os compradores, é o oposto. Uma meta que depende de créditos, definições de combustíveis e médias de frota não vira uma mensagem simples na concessionária. Um carro a combustão comprado em 2034 valerá alguma coisa? Os híbridos plug-in continuarão atraentes? Nada na cobertura responde a isso, e desconfiaríamos de quem disser que sabe. Valor de revenda e financiamento são do tipo de coisa que detesta ambiguidade.
Nossa opinião: uma data clara, mesmo dura, é mais fácil de planejar do que um percentual negociado com notas de rodapé. Este acordo são as notas de rodapé.
Os híbridos sorriem, e os rivais chineses provavelmente também
O beneficiário claro de um 2035 mais frouxo é, a nosso ver, o híbrido. A cobertura descreve o acordo como uma abertura para carros híbridos e a combustão e para combustíveis renováveis e de baixo carbono. Quem vende bons híbridos hoje acaba de ganhar uma pista mais longa. Isso favorece as marcas estabelecidas, com muito conhecimento em motores a combustão.
Os vencedores menos óbvios, na nossa opinião, são as fabricantes chinesas. Nada na cobertura diz isso, então encare como uma previsão: a incerteza na Europa premia quem consegue oferecer modelos elétricos e híbridos a custo competitivo e se adaptar rápido. Enquanto isso, as marcas europeias que apostaram pesado em plataformas elétricas ouvem que a linha de chegada mudou de lugar, o que pode aliviar a pressão para baratear os carros elétricos. Menos pressão sobre o preço é exatamente a brecha que um desafiante quer.
Há ainda uma reviravolta de política industrial. O pacote vincula incentivos a veículos limpos fabricados na UE e créditos ao aço de baixo carbono produzido na UE. Para nós, isso parece um instinto protecionista embrulhado numa regra climática, e pode ajudar os fornecedores locais, embora esperássemos o texto final antes de julgar o quanto.
Nosso veredicto
O acordo é o clássico europeu: afrouxado o bastante para reivindicar uma vitória, rígido o bastante para que ninguém fique realmente satisfeito. Ambientalistas provavelmente verão um recuo, a indústria diz que viu pouco, e os motoristas ficam com uma regra difícil de ler.
Se você pretende comprar um carro, não encare isso como licença para ignorar a eletrificação: no papel, a meta continua sendo de 95%, segundo o mecanismo relatado. Se está considerando um híbrido, ele parece um caminho do meio seguro por enquanto. E, se você é formulador de políticas, o melhor que pode fazer é concluir rápido e manter a regra simples. O pior resultado não é uma meta mais rígida ou mais frouxa, e sim anos com uma meta que não para de mudar.
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