Imposto por milha britânico é mais justo que taxa fixa, se acertar em três pontos
O imposto britânico por milha para carros elétricos pode servir de modelo a outros países, mas só funciona com privacidade blindada, preço transparente e sem punir quem chegou primeiro.
Foto: original: Michael Movchin edited by Felix Müller / Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)
É justo cobrar de um carro elétrico pelas milhas que ele roda? Em princípio, sim. A pergunta mais difícil é se os governos conseguem fazer isso sem transformar cada elétrico em um dispositivo de rastreamento e cada pioneiro em alvo de arrecadação. O Reino Unido está prestes a descobrir, e outros países provavelmente vão tomar nota.
O que o Reino Unido colocou na mesa
O novo imposto sobre carros elétricos deve entrar em vigor no Reino Unido em 1º de abril de 2028, segundo a Autopista. O veículo acrescenta que o governo britânico já planeja uma calculadora digital e um sistema automatizado de reembolso para acompanhar a medida.
O alcance é maior do que "elétricos" sugere. Outros veículos de imprensa dizem que híbridos plug-in e carros a hidrogênio estão incluídos, e o Motor.es o descreve como o primeiro imposto desse tipo em uma grande economia europeia, e não uma regra da UE. Uma ressalva: a alíquota. Vários veículos espanhóis citam cerca de 2 centavos por quilômetro, mas seus totais anuais não batem, e pelo menos um descreve uma cobrança anual fixa diferente. Não vamos citar um valor anual, e vale desconfiar de quem o faça sem mostrar a conta.
A lógica é sólida: estradas custam dinheiro, e o imposto sobre combustível está morrendo
A justificativa é simples, e achamos difícil de contestar. À medida que os carros deixam de comprar gasolina e diesel, o imposto sobre combustível que paga as estradas evapora. As reportagens descrevem a nova cobrança como compensação exatamente por isso. Uma taxa anual fixa para elétricos cobriria o buraco na arrecadação, mas ignoraria o uso: um aposentado que roda poucos milhares de milhas por ano subsidiaria um vendedor que roda dezenas de milhares. Pagar por distância liga a conta ao desgaste e ao congestionamento, que é como o imposto sobre combustível sempre funcionou.
Por isso, o modelo provavelmente será copiado. Governos diante do mesmo rombo no orçamento podem enxergar um projeto que funciona, e veículos espanhóis já especulam que o debate possa chegar à França e à Espanha. Nossa opinião: a ideia vai se espalhar mais rápido do que os detalhes merecem.
É nos detalhes que tudo pode dar errado
Primeiro, a privacidade. O imposto é pago pela distância rodada e, segundo a Autopista, será verificado em inspeções ou controles aleatórios. Conferir a quilometragem numa inspeção é muito menos invasivo do que rastrear um carro por GPS, e esperamos que o Reino Unido fique desse lado da linha. Até o governo dizer exatamente quais dados são coletados, quem os vê e por quanto tempo são guardados, os motoristas têm todo o direito de desconfiar. Nossa recomendação a quem for copiar a medida: colete a distância e nada mais.
Depois, a transparência. Uma cobrança por milha só é justa se o motorista consegue enxergá-la. As reportagens dizem que ela vem somada ao imposto rodoviário já existente, então a vantagem de custo do elétrico dependeria de um número que a maioria das pessoas não consegue prever. A calculadora planejada e os reembolsos automáticos são animadores, já que reembolsos sugerem que erros são esperados e corrigíveis. Mas uma calculadora não substitui uma alíquota clara e estável. Se o preço por milha subir a cada orçamento, o imposto "justo" vira uma catraca.
Por fim, os pioneiros. Quem comprou elétricos quando eram caros e o carregamento era precário assumiu o risco que fez o mercado existir. Atingi-los com uma nova cobrança justamente quando o mercado amadurece seria um péssimo prêmio e poderia assustar a próxima onda de compradores que pensam em migrar. Achamos que um desenho justo introduziria a cobrança gradualmente ou manteria o custo total de uso dos elétricos visivelmente abaixo o dos carros a combustão. As montadoras também continuam frágeis: a unidade Model e da Ford registrou prejuízo operacional ajustado de cerca de 990 milhões de euros no terceiro trimestre. Os compradores não deveriam carregar uma nova incerteza além disso.
Nosso veredito
Pagar por milha é o instinto certo e um modelo melhor que uma taxa fixa. Mas um bom princípio ainda pode ser mal executado. Se o Reino Unido mantiver a coleta de dados no mínimo, divulgar a alíquota com clareza e proteger quem foi o primeiro a migrar para o elétrico, merecerá ser um modelo. Se não, servirá de alerta para os países que agora tomam nota. Até 2028, acompanharíamos as regras de privacidade mais de perto do que a própria alíquota.
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