O Quattro está de volta sem a Audi, e está tudo bem por isso
Uma start-up britânica ressuscita o Quattro com mecânica do RS4 e um V8. Para nós, herança é um ativo que serve quem tem engenharia para isso: avalie o carro, não o emblema.
Foto: Robotriot / Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)
De quem é uma lenda: da empresa que registrou a marca ou das pessoas que continuam obcecadas por ela? O Quattro está voltando, e a Audi não teve nada a ver com isso.
O retorno vem de uma empresa britânica, a Audacious Automotive, e o carro se chama IV. Segundo o site alemão hna.de, ele é construído sobre a base técnica do Audi RS4 da geração B7, com o V8 de 4,2 litros, câmbio manual de seis marchas e tração integral permanente. Estão previstas no máximo 50 unidades, com preços a partir de 350.000 libras (cerca de 419.000 euros). A primeira entrega está marcada para o fim de 2027.
O emblema nunca foi o produto
Como observa o Merkur, a Audi ainda usa o nome "quattro" para sua tecnologia de tração integral, e não foi anunciado o retorno do modelo original. Ou seja, Ingolstadt é dona da palavra, da história e da mitologia, mas não vende o que as pessoas realmente querem: um cupê quadrado, de quadris largos e com cara de Grupo B. Outra empresa percebeu a lacuna.
Por isso achamos que esta história fala menos de um carro e mais de como a herança funciona como ativo. O valor de uma marca está na memória, e essa memória pode ser atendida por qualquer um com engenharia para isso. Uma montadora que deixa uma lenda na prateleira não deveria se surpreender quando uma empresa pequena a pega. Outras reportagens mencionam um renascimento do Ur-quattro pela Abt em série limitada, supostamente esgotada em poucas horas, além de vários outros restomods. Não temos como verificar esses detalhes aqui, mas o padrão nos parece claro: existe demanda, e a dona do nome não a atende.
Avalie o IV pela mecânica, não pela linhagem
Os puristas vão reclamar, e uma objeção é justa: o cinco cilindros do original ficou para trás. O diretor-geral da Audacious, Mac Zaglewski, argumenta que a arquitetura V8 permite versões com mais de 750 cv e giros de até 10.000 rpm, algo que, segundo ele, jamais seria possível com o cinco cilindros. Até a versão básica teria mais de 600 cv. São afirmações da empresa, e não vimos nenhuma verificação independente.
Ainda assim, a lógica de engenharia convence mais do que a reclamação nostálgica. Usar uma plataforma doadora cujo motor, câmbio, freios, suspensão e sistemas de controle foram projetados para funcionar juntos é um jeito sensato de construir um carro de baixa produção. O próprio Zaglewski ressalta essa coerência. Confiaríamos mais nisso do que em um Frankenstein de peças sob medida. Há ainda duas opções de carroceria: uma de metal moldado à mão, que mantém a estrutura superior e os vidros de um Ur-quattro original, e outra de fibra de carbono, que dispensa carro doador. A segunda é, provavelmente, a escolha mais responsável para o fã que não quer picotar um clássico sobrevivente.
Seríamos mais céticos em relação ao preço. 350.000 libras compram muito carro, e a comparação feita pelo hna.de, cerca de 20 VW ID. Polo com preços a partir de 24.995 euros, mostra como isso está longe da vida normal. Na Alemanha, só o imposto sobre valor agregado (IVA) levaria o valor a pelo menos meio milhão de euros, segundo o mesmo veículo. Não é uma crítica ao carro, apenas um lembrete de que se trata de arte de colecionador com motor, não de um rival para nada do que se vê em uma concessionária.
O que os fãs, e a Audi, devem tirar disso
Para os entusiastas, nossa recomendação é simples: esqueça o teste de pureza e faça as perguntas que faria a qualquer esportivo de baixa produção. A estrutura é sólida? A qualidade de construção está documentada? O número de potência se confirma quando houver testes independentes? O primeiro IV já estaria sendo construído, então essas respostas devem chegar.
Para a Audi, a lição é mais incômoda. Uma empresa pode passar décadas transformando um modelo em identidade de marca e depois ver uma start-up lucrar com a nostalgia, ainda que apenas 50 vezes. Não achamos que a Audi precise fazer um Quattro retrô. Mas ela deveria saber que a lenda não fica em segurança no arquivo. Se você não usa sua herança, alguém vai usar, e pode ser que faça bem feito.
Nosso veredito: o Audacious IV não é uma traição ao Quattro. É o mercado lembrando a Ingolstadt que um nome só vale o que as pessoas ainda podem dirigir.
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