Prejuízo da Model e na Ford diminui, mas as picapes ainda pagam a conta
Um prejuízo 25% menor em elétricos sugere que a aposta da Ford tem conserto, mas os lucros de picapes e de modelos a combustão ainda bancam uma transição sem um sucesso barato.
Imagem gerada por IA
Perder US$ 1,058 bilhão em três meses é uma boa notícia? Na Ford, aparentemente sim, desde que você olhe para a linha certa. A divisão elétrica da empresa, a Model e, perdeu menos que um ano atrás. A receita dela, porém, caiu bastante.
Veja o que aconteceu. Segundo a AOL, a Ford registrou cerca de US$ 2 bilhões de lucro líquido no terceiro trimestre de 2026, com receita de US$ 49,5 bilhões, e elevou o piso de sua projeção de lucro operacional para o ano inteiro, que agora vai de US$ 10,5 bilhões a US$ 11 bilhões. O prejuízo da Model e foi de US$ 1,058 bilhão, contra US$ 1,41 bilhão no terceiro trimestre de 2025. A receita caiu 31%, para US$ 1,2 bilhão. A Ford ainda espera que a Model e perca cerca de US$ 4 bilhões neste ano e passe a dar lucro em 2029.
Prejuízo menor com 31% menos receita é triagem, não virada
A melhora de 25% é real e, na nossa avaliação, reforça a tese de que a aposta em elétricos tem conserto. O comunicado da Ford diz que a divisão está otimizando a rentabilidade dos veículos de primeira geração. É o instinto certo: parar de sangrar com produtos que nunca seriam lucrativos.
Mas teríamos cuidado na hora de comemorar. Um prejuízo que diminui enquanto a receita cai quase um terço parece mais uma redução de exposição do que uma conquista de clientes. A tendência também não é uma linha reta. De acordo com o resumo da teleconferência feito pelo Seeking Alpha, o prejuízo subiu de US$ 919 milhões no segundo trimestre para US$ 1,1 bilhão no terceiro. A comparação com o ano anterior é a que favorece. A comparação com o trimestre anterior é a sóbria.
Ainda assim, achamos que a gestão merece crédito por não fazer de conta. Uma meta de lucro até 2029 é longa o bastante para ser crível e curta o bastante para ser cobrada.
As picapes são o verdadeiro programa elétrico
Olhe quem está pagando. A Ford Pro, o negócio de veículos comerciais, teve lucro operacional de US$ 1,665 bilhão no trimestre, e a Ford Blue, o negócio de modelos a combustão e híbridos, US$ 1,392 bilhão. Juntas, cobriram o buraco da Model e e ainda sobrou. A diretora financeira, Sherry House, disse que a demanda e as encomendas da Super Duty têm se mantido firmes.
Essa é, como entendemos, a verdade incômoda da transição elétrica das montadoras tradicionais: ela funciona como um subsídio interno. Quem compra picapes e veículos a combustão financia o futuro elétrico, queira ou não. Isso funciona enquanto esses veículos continuarem vendendo, e os riscos estão na mesa: custo crescente de matérias-primas, problemas com fornecedores e, segundo House, um 2027 em que o lucro seja parecido com o de 2026. Lucro estagnado e um prejuízo elétrico ainda grande deixam pouca margem para erro.
A nossa leitura é que isso é defensável, mas não é confortável. A margem operacional da Ford Pro já caiu para 9,4%, ante 11,4% um ano antes, e, se os motores de lucro enfraquecerem mais, o subsídio fica mais fino justamente quando a empresa precisa gastar mais na nova plataforma.
O Fathom é o único número que importa agora
O que falta na linha da Ford é, a nosso ver, um sucesso barato. A resposta é o Fathom, uma picape média na nova plataforma Universal Electric Vehicle, prevista para o fim de 2027 com preço inicial de US$ 28.350, versões superiores na faixa alta dos US$ 30.000 e pré-venda aberta no primeiro trimestre de 2027. A Ford diz que já fabricou mais de 5.000 grandes peças de alumínio fundidas em bloco único, e que as peças dianteira e traseira de cada Fathom simplificam a montagem, que antes tinha 146 peças estruturais.
Parece uma aposta de projeto inteligente: menos peças, menor custo, preço mais baixo. Também gostamos de ele poder alimentar uma casa sem um inversor separado, o que transforma um recurso em argumento de venda. Mas repare onde os executivos dizem estar a maior oportunidade de venda adicional: recursos digitais, assinaturas de longo prazo e assistência avançada ao motorista. Isso é um plano, e planos não são receita. Saber se os compradores americanos vão pagar mensalidades por uma picape de US$ 28.350 é, a nosso ver, a maior pergunta em aberto de toda a história.
Há ainda um problema de calendário. A Ford espera perder cerca de US$ 4 bilhões com elétricos neste ano enquanto aguarda um veículo que chega no fim de 2027, e o lucro está prometido para 2029. É um longo período em que os rivais podem se mexer primeiro.
Veredicto
A redução do prejuízo é um avanço real e sugere que o negócio de elétricos pode ser consertado em vez de abandonado. Mas é um conserto por retração, bancado pelas unidades lucrativas. Não julgue a estratégia elétrica da Ford por este trimestre. Julgue por duas coisas: se o Fathom chegará no prazo e a esse preço, e se a Ford Pro e a Ford Blue seguirão fortes o bastante para continuar pagando. Até lá, a descrição honesta é a de uma empresa comprando tempo a cerca de US$ 1 bilhão por trimestre.
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