O elétrico da Geely para a Europa é a aposta certa, mas só se a Europa definir o projeto
A Geely apresentará em 2027 um carro desenhado em Milão para a Europa. É admitir que modelos chineses adaptados não bastam e testar se “local” é mais que o endereço de um estúdio.
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O que significa uma montadora anunciar que seu próximo modelo será “para a Europa”? Principalmente que os anteriores não eram. Essa é a confissão silenciosa embutida no plano da Geely, e achamos que é uma das coisas mais interessantes que uma marca chinesa disse sobre o mercado europeu este ano.
A admissão é a notícia
Segundo uma entrevista com Dennis Weinel, diretor de definição de produto, publicada em 26 de outubro, a Geely revelará em 2027 seu primeiro carro desenvolvido especificamente para a Europa, desenhado em seu estúdio de Milão. Até lá, tudo o que a Geely vende nas concessionárias europeias pertence ao que Weinel chama de portfólio legado: carros concebidos na China e finalizados aqui.
O veículo francês Les Numériques coloca a questão de forma mais direta: chega de carros chineses apenas adaptados ao Velho Continente, e um modelo que finalmente corrija as falhas de software criticadas pelos europeus. Outras reportagens francesas descrevem o plano como uma tentativa de corrigir o que irrita os motoristas europeus, com o carro seguindo depois para outros mercados. Não temos preço, motorização nem nome, então tudo o que vem a seguir sobre o carro em si é especulação.
O software é o verdadeiro teste, não o caderno de rascunhos
Milão é um endereço lindo. Também é a parte fácil. Qualquer um pode contratar designers e dar a um carro proporções italianas. O que faz um dono europeu desistir de um carro nos primeiros seis meses raramente é, na nossa opinião, o formato dos faróis; é um carro que apita a cada vez que sai um pouco da faixa, um menu que enterra os controles do ar-condicionado, um assistente de voz que não entende um sotaque. O fato de as reportagens apontarem o software, e não o visual, como o que precisa ser corrigido sugere que a Geely sabe por onde vaza sua reputação.
Por isso, nossa posição é simples: se o carro de 2027 chegar com a mesma filosofia de calibração dos originais chineses e uma nova camada de tinta europeia, será um carro com outro emblema e relações-públicas melhores. “Desenhado em Milão” só vale se as decisões de engenharia, do comportamento dos assistentes de direção à calibração do chassi, forem tomadas por pessoas que dirigem em estradas europeias e prestam contas a compradores europeus.
O sarrafo foi elevado por carros fabricados na Europa
A Geely não está entrando numa sala vazia. Basta olhar os sete finalistas do Carro do Ano na Europa 2027 que, segundo o Caradisiac, são todos totalmente elétricos pela primeira vez na história do prêmio. De acordo com o Numerama, os sete são fabricados na Europa em sentido amplo. Entre eles, o Renault Twingo joga a carta dos menos de 20 mil euros, enquanto o Volkswagen ID. Polo mira cerca de 25 mil euros. Esse é o território de preço em que o elétrico europeu popular está sendo disputado agora, e são os carros fabricados neste continente que dão o tom.
Até a Toyota está lendo o ambiente. A Auto Express flagrou na Alemanha um protótipo de desenvolvimento da Toyota que sugere um pequeno SUV elétrico voltado à Europa, e observa que marcas tradicionais estão afinando suas linhas para competir com rivais chineses mais baratos. Todos parecem convergir para a mesma conclusão: a Europa quer carros com cara de Europa.
O que diríamos à Geely e o que diríamos aos compradores
Para a Geely, a lição é que “local” é um pacote de três coisas: calibração, preço e serviço. A calibração e o software estão cobertos pelo projeto de Milão, ao menos no papel. O preço é a incógnita; uma marca chinesa que chega com etiqueta de preço europeia e sem vantagem de custo perde seu principal argumento. O serviço é o assassino silencioso: uma rede de concessionárias e um fornecimento de peças que façam um conserto de três semanas parecer normal. Aqui a Geely leva vantagem, já que opera na Europa por meio de Volvo, Polestar, Lotus e Smart, e deveria aproveitar esse conhecimento sem cerimônia.
Para os compradores, nossa recomendação é paciência. Não julgue a marca pelo portfólio legado e não dê crédito ao carro novo antes de ele existir. Os primeiros testes, o preço final e o primeiro ano de atualizações de software dirão muito mais do que qualquer anúncio de estúdio de design.
Nosso veredicto: é a jogada certa, e já vem tarde. Mas “europeu” é uma alegação que o carro precisa conquistar na estrada, no aplicativo e na oficina. Se a Geely acertar nisso, o modelo de 2027 pode marcar o ponto em que as marcas chinesas deixam de exportar produtos e passam a construir produtos europeus. Se não, será mais um carro adaptado com uma história de origem mais bonita.
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