A guinada do Lanzador não é recuo da Lamborghini: é saber ler o mercado
A Lamborghini trocou o Lanzador 100% elétrico por um híbrido plug-in, e seu CEO diz que os clientes estão felizes. Para nós, o super GT elétrico foi uma aposta no cliente errado.
Foto: Prova MO / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)
Dá para vender um sonho em formato de V12 a quem quer silêncio? A Lamborghini decidiu que não, e o Lanzador, o grã-turismo de quatro lugares que seria seu primeiro carro totalmente elétrico, agora será um híbrido plug-in. Os clientes, segundo o chefe da marca, estão encantados.
Eis a versão resumida. O Lanzador foi mostrado como conceito em 2023, com um sistema elétrico de dois motores e potência declarada de 1.341 cv. Segundo a Car and Driver, o CEO Stephan Winkelmann disse ao The Sunday Times que a "curva de aceitação" dos elétricos entre o público-alvo da Lamborghini é "próxima de zero". Meses depois, na Monterey Car Week, ele afirmou que a mudança "foi muito bem aceita pelo cliente. Eles estão muito felizes com isso". O carro continua previsto para 2028, mas o sistema de propulsão ainda não foi revelado.
O cliente votou, e não foi por pouco
O mais interessante é a escolha de palavras de Winkelmann. Ele chamou uma ofensiva totalmente elétrica, nesse segmento, de "hobby caro" e disse que seria financeiramente irresponsável com acionistas e funcionários. Isso não é uma marca em cruzada ideológica contra as baterias. É uma fabricante lendo a própria carteira de pedidos.
Acreditamos que essa é a leitura certa. Ninguém compra uma Lamborghini por eficiência nem para ir ao trabalho. Compra-se por uma sensação, e Winkelmann diz isso: os clientes valorizam a "experiência emocional", incluindo o som de um motor a combustão. Dá para discutir se isso é racional. Não dá para discutir que é o produto.
Ajuda também o fato de os números das concessionárias não serem sombrios. A Autoweek informa um recorde de 10.747 carros entregues no mundo em 2025, que a empresa atribui à sua estratégia de hibridização. Todos os modelos agora têm opção híbrida. Em nossa opinião, a virada para o PHEV não foi um resgate, mas reforçar o que já funcionava.
Precoce, não errado para sempre
Isso prova que os elétricos estão condenados no segmento de luxo? Não, e resistiríamos a essa manchete. O ponto de Winkelmann, segundo o Yahoo Autos citando o Motorbiscuit, é que a curva de aceitação do tipo de cliente da Lamborghini "não está aumentando". É uma afirmação sobre uma fatia pequena, emocional e muito rica do mercado, não sobre crossovers familiares ou carros de luxo para o dia a dia, onde a Car and Driver observa que o cenário para os elétricos pode ser bem diferente.
Nossa opinião: o Lanzador elétrico chegou cedo, não era absurdo. Lançar o primeiro Lamborghini elétrico como GT de quatro lugares era pedir aos compradores que abrissem mão do único item que a marca vende, num momento em que a tecnologia ainda não consegue substituí-lo. Um híbrido plug-in permite manter o drama e acrescentar torque elétrico. O argumento do próprio Winkelmann é "o melhor dos dois mundos", unindo o impulso das baterias em baixa rotação à emoção de um motor a combustão. É marketing, claro, mas também nos parece uma descrição justa de por que o híbrido faz sentido aqui.
Há ainda um ângulo competitivo. Os comentários de Winkelmann, segundo os relatos, vieram pouco depois de a Ferrari lançar o Luce EV, que provocou forte reação negativa. Michael Field, da Morningstar, disse que muitos fãs estão decepcionados com a adesão da Ferrari ao conceito elétrico, por acreditarem que ele dilui uma marca construída sobre a potência a combustão. A Lamborghini, pelo menos por ora, parece ser a que ouviu os clientes. Teríamos cuidado em apontar um vencedor, já que não temos dados de vendas do Luce, mas o contraste de reputação é difícil de ignorar.
O que observar: o híbrido consegue manter o drama?
O risco mudou de lugar. A questão já não é se os compradores querem um elétrico, mas se um PHEV cabe num cupê de quatro lugares sem perder o caráter. O The Supercar Blog observa que um sistema ao estilo do Revuelto ou do Temerario pode exigir grandes mudanças de arquitetura, enquanto um V8 4.0 biturbo derivado do Urus SE é outra possibilidade. Especulação, vale deixar claro: a Lamborghini não disse nada. O mesmo veículo sugere que o carro poderia superar com folga 800 cv, o que seria um resultado razoável, mas é palpite.
O preço também importa. A Autoweek lista o Revuelto a partir de cerca de US$ 609.000 e o Temerario a partir de mais de US$ 390.000. Onde quer que o Lanzador se posicione, esperamos que os compradores paguem por som e fúria, não por um experimento elétrico.
Veredito
A Lamborghini acertou ao abandonar o Lanzador elétrico. Não porque os elétricos tenham fracassado, mas porque este cliente, esta marca e este momento não se alinharam. A lição para a indústria é pouco glamorosa: no topo da pirâmide, vende-se emoção primeiro e motorização depois. Quem ignora isso corre o risco de bancar o que Winkelmann chamou de hobby caro. Se você é fã da Lamborghini, fique tranquilo: o Lanzador terá motor. Se você é um rival que planeja um carro-chefe silencioso, olharíamos com atenção para a sua própria curva de aceitação.
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